Machado de Assis, observador atento das grandes e das pequenas coisas do dia a dia do seu tempo, imaginou um acirrado debate entre a agulha e a linha, na sala de uma costureira da alta sociedade carioca. Qual seria a mais importante, a agulha ou a linha?
A linha se arrogava a primazia, dizendo-se indispensável, pelos furos que faz no tecido. Mas como?, rebateu a linha, sem mim não haveria a costura que prende e liga um pedaço ao outro. Tanto isso é verdade que, afinal, pronto o vestido, “quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido?”
Assim, à pobre agulha só restou voltar, derrotada, à caixinha de costura.
Mas, finda a disputa, um alfinete finório entra em cena, dirigindo-se à agulha: “Aprende, tola, faze como eu que não abro caminho para ninguém”.
E aí o velho Machadão conclui, maliciosamente, pela boca de um professor melancólico: “Também eu tenho servido de agulha para muita linha ordinária!”
À luz desse saboroso apólogo, imaginei que, nos dias de hoje, se poderia simular também uma discussão entre outros dois simples objetos, presentes entre os dedos de todos nós, a vida toda. Agulha e linha muita gente não manipula. Eu, por exemplo. Mas que tal lápis e esferográfica? Qual dos dois vale mais?
Da importância do lápis não se precisa falar muito. A própria palavra lápis, que é pedra, em latim, está a nos mostrar sua ligação histórica multissecular com toda a humanidade, pois a pedra foi o primeiro instrumento com que o ser humano se exprimiu graficamente. Esse instrumento mudou de forma e tamanho, ao longo tempo, mas agora, fino e limpo, com ponta de grafita, tem sido nosso companheiro fiel e universal, desde a primeira infância, para escrever, desenhar ou simplesmente rabiscar, por necessidade ou por distração.
Com o tempo apareceu a caneta, esse pequeno tubo em que, de início, se encaixava uma pena de ganso, a se molhar em tinta. Depois, pena de metal e, e em seguida, surge a caneta-tinteiro, transformada, no século passado, na caneta esferográfica, assim chamada pela pequenina esfera rolante que traz numa das pontas. Prática, sem borrar o papel, ela frequenta as mãos de todas as classes e idades, democraticamente.
Não acredito que, hoje, Machado de Assis fingiria uma rixa entre caneta e lápis. Ambos são úteis, baratos, indispensáveis e de fácil manejo.
Mas, talvez, propusesse, e eu com ele, uma questão maior. Não qual dos dois instrumentos seria mais importante e sim por que nenhum dos dois se vê nas mãos de 14 milhões de brasileiros analfabetos. Essa gritante realidade nos envergonha.
Os sem lápis e os sem caneta são gente como nós, com mãos capazes de fazer a terra gerar riqueza, como lavradores, e a cidade ficar mais limpa, como catadores. Por que não levar a essas mesmas mãos o domínio da escrita?
Insisto nesse verbo “levar”, porque esse processo de inclusão exige o efetivo compromisso de chegar até os jovens e adultos sem lápis e sem caneta. Não foi indo às aldeias dos nossos indígenas que os jesuítas do Brasil Colônia, nossos primeiros alfabetizadores, assentaram as bases do ensino elementar nacional?
Aldo Vannucchi