Para a avaliadora da CAPES Inez Stampa, o investimento na ciência e nas Humanidades é estratégico para o desenvolvimento nacional
Com uma trajetória que une a vivência prática no serviço público à profundidade da vida acadêmica, Inez Stampa é uma voz ativa na defesa da ciência nacional. Graduada em Ciências Sociais e Serviço Social, com doutorado e pós-doutorado, ela acumulou experiências na extinta Legião Brasileira de Assistência (LBA) e no Arquivo Nacional antes de se tornar professora do Departamento de Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente, coordena pesquisas que buscam entender as desigualdades sociais e preservar a memória política do país, unindo as duas áreas presentes em sua formação e contribuindo para a produção de conhecimento do Serviço Social brasileiro. Nesta entrevista, Inez, que já participou quatro vezes como avaliadora da CAPES/MEC dos programas de pós-graduação, detalha os desafios de ser pesquisadora, sobretudo na área de Humanidades.
CAPES: Diante do cenário atual, quais são os maiores desafios para quem faz ciência no Brasil?
Inez Stampa: O desafio primordial é produzir conhecimento em um país que, via de regra, não valoriza devidamente essa atividade. Fazer ciência no Brasil acaba sendo um ato de resistência e persistência. Precisamos que a sociedade compreenda que investir em ciência e na formação de mestres e doutores em todas as áreas, inclusive nas Humanidades, é um investimento estratégico para o desenvolvimento nacional.
CAPES: Muitos ainda veem a pós-graduação como algo restrito à academia. Qual o impacto real dessa formação para a sociedade?
Inez Stampa: A pós-graduação não é para uma “elite” que quer apenas se mostrar intelectualizada. Ela qualifica os espaços profissionais além da universidade, permitindo que empresas e a sociedade em geral contem com profissionais que dominam conhecimentos atualizados e interdisciplinares. A ciência que produzimos não é para ser difundida apenas entre nós, acadêmicos; nós produzimos para a sociedade brasileira. Acho fundamental tirar a pesquisa desse lugar mistificado de “Olimpo”, tratando-a como um trabalho de profissionais comprometidos com os interesses sociais.
CAPES: Como a senhora avalia o papel do docente no processo de avaliação da pós-graduação nacional?
Inez Stampa: Esse é um trabalho técnico-político de muito aprendizado, e não um serviço meramente burocrático. Participar da avaliação e do acompanhamento dos programas permite conhecer o que o Brasil está produzindo de fato na universidade, para além das fronteiras das nossas próprias entidades acadêmicas. Isso é crucial para tentarmos reduzir as assimetrias regionais históricas do nosso país. Por meio das visitas aos programas, podemos prestar solidariedade e trocar experiências com cursos que buscam melhorar sua qualidade, criando uma rede de conhecimento que fortalece a ciência em todas as regiões. É com esse espírito que tenho contribuído com diversas comissões de avaliação da área de Serviço Social nos últimos 20 anos, tendo sido coordenadora adjunta da área de Serviço Social no período 2017-2021.
CAPES: A senhora transita entre temas como mundo do trabalho e memória social. Como essas áreas se conectam na sua produção?
Inez Stampa: Minhas linhas de pesquisa focam nas relações e condições de trabalho das classes populares, mas também nas políticas públicas. Por exemplo, estudei o impacto da privatização do transporte ferroviário urbano no Rio. Já a memória social entrou na minha vida através do Arquivo Nacional, onde coordenei o programa “Memórias Reveladas” sobre a ditadura militar. Tento sempre articular minhas experiências profissionais com a teoria. O contato com documentos e familiares de vítimas da ditadura me levou a pensar o papel do próprio Serviço Social naquele período, gerando pesquisas financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Aquele foi um período histórico em que assistentes sociais brasileiros se aproximaram da pesquisa e do trabalho na perspectiva crítica e na luta por garantia de direitos.
CAPES: Como sua origem no interior e a curiosidade na infância moldaram sua visão como pesquisadora?
Inez Stampa: Eu sempre fui uma criança muito curiosa, criada no interior, na “roça”. Meus pais sempre nos incentivaram, a mim e meus irmãos, a ler e a entender o “porquê” das coisas. Mudei-me para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades de estudo e, embora tenha começado nas Ciências Sociais para entender as desigualdades, acabei encontrando no Serviço Social o espaço para estudar a fundo a “questão social” e as políticas públicas. Minha experiência como servidora pública federal também alimentou esse interesse, ao trabalhar de perto com favelas e bairros periféricos.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é um órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).
Fonte: Redação ASCOM/CAPES
Foto de capa: Professora Inez Stampa. Foto: Acervo pessoal
